quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Violência na maternidade

O site Guia do Bebê divulgou ontem uma matéria sobre pesquisa que revela os maus tratos de parturientes em maternidades de São Paulo.
Cidades e regiões à parte, sabemos nós que essa violência - física ou verbal - acontece em todas as partes, no SUS ou nos hospitais particulares. Se seu médico de confiança não está com você e não vai receber para te acompanhar durante todo o trabalho de parto, você fica à mercê da
vontade do plantonista.
Ilustro, agora, algumas histórias vividas há pouquíssimo tempo por minha prima e minha amiga.
Minha prima fez o pré-natal pelo SUS e pelo plano de saúde ao mesmo tempo. Explico: todos temos direito à saúde pública, e ela só adquiriu o plano depois de grávida, o que fez com que ela não estivesse coberta pelo plano no momento do parto - a carência absurda que os convênios e cooperativas médicas no Brasil estipulam é de 300 dias (10 meses) para parto.
Sendo assim, ela decidiu ter seu bebê na Santa Casa de Santos, onde ela trabalha, e sabia que teria direito a um quarto um pouco melhor que o SUS lhe proporcionaria em outro hospital público qualquer.
Na sexta-feira à noite, ela começou a ter contrações, e no sábado foi ao hospital passar pelo médico de plantão. Chegando lá, o médico a examinou e disse que ela não tinha dilatação, e que era pra voltar pra casa. Em casa, ela percebeu um líquido rosado correndo como se fosse o muco da ovulação. Voltou ao hospital à noite e foi informada por outro médico que aquilo seria o tampão, e que era para ela esperar em casa que as contrações aumentassem - em intensidade e ritmo - e que a bolsa rompesse - todas nós, mulheres grávidas, mães e interessadas no assunto sabemos de muitas mulheres que entram em trabalho de parto ativo sem romper a bolsa - para que ela voltasse para lá.
No domingo, ela não aguentava de dor e foi novamente até o hospital, e novamente mandaram-na de volta para casa.
Na segunda, eu liguei para saber como ela estava, porque estava mesmo preocupada com aquela situação. Ao telefone, ela falou comigo que não estava insuportável, mas que estava chato demais sentir toda aquela dor às 41 semanas completas de gravidez, e que ela não ia mais esperar.
Minha mãe foi lá para lhe dar um apoio religioso (minha mãe é messiânica), e quando chegou, a bolsa rompeu.
Partiram minha prima, a mãe dela e minha mãe para a maternidade, às 23h de segunda-feira 23/8.
Algumas horas depois minha mãe me liga para avisar que ela havia dado à luz Davi, de cesárea, e que todas as outras 8 mulheres que chegaram naquela virada de lua haviam passado por cirurgia, independente de seus sinais propícios a partos naturais ou não. Uma delas, que chegou com a bolsa rompendo e inundando a recepção, estava com mais de 8 dedos de dilatação e o médico fez cesárea nela também.
E eu fiquei imaginando: que poder temos sobre nossos corpos numa hora dessas?
Minha prima não teve direito a acompanhante, previsto em Lei Federal e norma da OMS. E todos os casos que a gente vê na televisão de bebês trocados, bebês sequestrados e bebês mortos por negligência médica?
Graças a Deus, no caso da minha prima era mesmo necessária a intervenção cirúrgica, e para ela foi bom. A cirurgia foi ok, os pontos eram quase invisíveis e a cola ficou perfeita, apesar do corte ser tão grande que dava para tirar gêmeos de uma só vez lá de dentro.
E ela, até agora, não conseguiu fazer o teste da orelhinha, porque a Lei entrou em vigor e ninguém equipou o hospital ou os postinhos de saúde. Violência embutida na falta de atendimento. Ela vai pagar para fazer num laboratório, mas... e quem não tem dinheiro?
Bom... a outra história é da minha amiga.
No dia do aniversário dela, na sexta-feira seguinte ao nascimento do Davi, ela estava com 5 dedos de dilatação e sem dinheiro para pagar a obstetra para acompanhá-la. Ela foi pra Casa de Saúde de Santos, hospital-maternidade modelo! Considerado o melhor da região, e blá blá blá.
Ela chegou lá na sexta e foi atendida por um médico excelente, que a colocou num quarto de pré-parto onde ela pôde tomar banho e caminhar o tempo que precisou, sem ninguém ficar olhando feio com cara de "o que essa louca tá fazendo???" enquanto ela vocalizava para diminuir a dor das contrações.
Quando era de manhã, com 8 dedos de dilatação, a bolsa não havia rompido (lembra o que falei ali acima?) e o médico que a atendera durante toda a madrugada foi falar com ela. Disse que ia deixar um relatório médico para o outro obstetra que o substituiria no plantão. Nesse relatório estaria a indicação para não estourar a bolsa antes de um determinado horário (cerca de 3 horas depois), a menos que a dilatação dela chegasse ao máximo.
Ele saiu e meia hora depois o outro médico entrou e estourou a bolsa dela. E ela com quase 9 dedos de dilatação. Quer dizer: o bonito decidiu que faria aquilo e não pediu a opinião dela, e não aceitou a indicação no relatório do outro médico - aquele que a atendera por cerca de 12 horas.
Claro que depois disso, ele deu pouquíssimo tempo para ela, e decidiu que iria fazer cesárea, porque a bolsa era rota há muito tempo e o bebê ia ficar seco, e podia morrer.
Se ele não tivesse interferido na natureza, ela teria seguido com as contrações e a dilatação até antes de a bolsa estourar, e talvez conseguisse o parto normal que queria.
Dois dias depois, na fila para o teste do pezinho, todas as mães que tiveram bebê no mesmo dia que ela, com o mesmo médico, haviam feito cesárea. Quase DEZ mães.
Eu entendo que ele era um médico só para atender às 10, mas... ele estudou e aprendeu que o Parto Normal é muito mais saudável, muito menos invasivo e de menor tempo de internação para mãe e bebê. No custo-benefício, sai muito mais barato que a cesárea. São menos instrumentos, menos pessoas atendendo, menos sujeira, menos roupas para lavar... Mas eles preferem uma cirurgia de 30 minutos a um parto de 2 horas com uma mulher gritando, fazendo força e - às vezes - o marido lá atrapalhando com perguntas e mais perguntas.
E aí fica a pergunta: será que a OMS está ciente desses fatos quando propõe a diminuição dos partos cirúrgicos, quando impõe que toda parturiente tem direito a um acompanhante, e ressalta a importância na humanização do atendimento na saúde?
E será que o Sr. Ministro da Saúde José Gomes Temporão sabe o que acontece nas nossas maternidades - públicas e privadas -, que simplesmente ignoram o atendimento proposto pela sua pasta?
Cabe a nós, mulheres grávidas, procurar sempre as materinidades que tenham o melhor e mais humanizado atendimento na hora do parto, e deixar as indústrias de cesárea às moscas.
E, sempre que possível, reservar uma graninha para pagar nossos médicos de confiança para nos acompanhar nesse momento decisivo nas nossas vidas - e de nossos pequenos seres.

PS: Entrei em contato com a Santa Casa de Santos sobre o parto da minha prima e não obtive resposta até hoje. Mesmo ela sendo funcionária, negaram a ela o direito previsto em Lei de ter a companhia de sua mãe durante seu parto.
PS2: Fiz questão de divulgar o nome dos hospitais, porque as pessoas não fazem ideia do que está por trás de instiuições consideradas sérias e idôneas. De repente alguém das assessorias vê meu post e resolve se manifestar. Deixo aqui o direito de resposta e a declaração de que, caso as coisas mudem, eu farei a divulgação dessas mudanças.

Um comentário:

Beca Bricio - Mulher que pariu disse...

Olha Raquel, amei amei amei!

Meu obstétra com 39 semanas e 3 de dilatação me mandou procurar um lugar estivesse a minha disposição para fazer o meu parto normal, e no dia seguinte sem saber onde ia parir e pagando plano heim, sendo q as maternidades não tinham médico de plantão independente de ser parto cesária ou normal, eu tinha que levar a minha equipe, mas eu tinha sido abandonada, né.

Recorri ao Hospital Universitário Gaffrée Guinle da Uni Rio e foi trevas! Fiquei sozinha 13horas cheia de dor, as enfermeiras não te atendem se você chia com dor. Eu me senti presa, sozinha, abandonada, culpada por querer um parto natural, me achei confusa, será que a minha opção de ser natural está errada? Minha mãe e meu marido desesperados sem notícias do lado de fora do hospital. Colocaram um soro que dificultava a minha locomoção e nada aliviava a minha dor, fizeram lavagem, e não tinha papel higiênico. Eu imaginava que uma obstétra que tinha sido bem legal comigo q faria o meu parto, mas o Gui nasceu na virada de plantão, entãoa um obstétra cavalo me tratou como se eu fosse um bicho, super estúpido, ele enfiava a mão na minha vagina e parecia que ele socava, doia demais. Qdo me levaram para a sala de parto com apenas 20 minutos já fizeram a episiotomia ... eu cheia de dor querendo uma mão para segurar e ninguém do meu lado. Nem aqueles estudantes nerds de medicina sem coração vieram me acudir.

Eu enviei um email para a secretaria de saúde do estado do rio de janeiro e para o ministério da saúde com o meu relato pedindo para reverem o tratamento que os profissionais da área dão as pacientes.
Precisamos fazer alguma coisa.
Não é possível que nós não temos direito de decidir. Os médicos te dão mil desculpas para optarmos pela cesária, mas e se eu não quiser?
Eu ainda não obtive nenhuma resposta também.

um bjão